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São José do Norte,13/08/2022

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A importância dos mais velhos para atenuar o trauma coletivo da Covid

Foto: g1.globo.com
A importância dos mais velhos para atenuar o trauma coletivo da Covid




“A convivência intergeracional mostrou que os avós tiveram papel da maior relevância para diminuir o estresse dos netos”, afirma especialista O título parece um tanto pomposo, mas corresponde à realidade, de acordo com a avaliação da psicóloga Rajita Sinha, professora da faculdade de medicina de Yale e diretora do centro de estresse da universidade. Num painel virtual sobre os desdobramentos emocionais da pandemia realizado pelo Projeto Longevidade, da Universidade Stanford, foi enfática:
“Assistimos a um grande sofrimento de crianças, adolescentes, adultos e idosos, todos vítimas de ansiedade e depressão. Ainda vivemos um estresse planetário, um trauma coletivo cujo impacto, físico e mental, atravessa diferentes recortes. Inclui não somente a doença, mas perdas, luto, insegurança financeira e suporte social, cujos efeitos são de longo prazo”.
Rajita Sinha, professora da faculdade de medicina da Universidade Yale
Yale University
Na universidade, pesquisadores estão empenhados em detalhar as consequências da Covid-19 na diminuição da expectativa de vida dos norte-americanos. “Sabemos que o estresse crônico é um fator de aceleração do envelhecimento e afeta a expectativa de vida. Nossa idade biológica, ou seja, a do organismo, avança em relação à idade cronológica, nos tornando mais velhos do que consta no documento de identidade. Queremos quantificar esse processo através de marcadores de envelhecimento em indivíduos de meia-idade e idosos no cenário da pandemia. Dependendo da forma como a pessoa vem conseguindo lidar ou não com os desafios que a cercam, sua expectativa de vida pode ter uma redução de seis meses a cinco anos”, afirmou Sinha. Aliás, no Brasil, a expectativa de vida caiu 4,4 anos em 2021, em consequência da pandemia: de 76 para 72,3 anos.
A psicóloga, uma referência mundial sobre a relação entre quadros severos de estresse e comportamentos de dependência e violência, lamenta o crescimento do número de suicídios de crianças nos EUA e analisa: “a situação familiar foi comprometida como um todo. Temos um conjunto de fatores que vai do isolamento a laços sociais rompidos, da perda de entes queridos à insegurança financeira. A escola e os professores, que têm um papel significativo em situações de crise, também foram impedidos de atuar no auge da pandemia, o que só aumentou o trauma”.
No entanto, ela aponta para a importância dos avós como agentes capazes de atenuar esse sofrimento: “a população afrodescendente foi duramente atingida pela Covid, mas os mais velhos funcionaram como um poderoso ponto de apoio, capaz de amortecer o impacto do trauma".
"A convivência intergeracional mostrou que os avós tiveram papel da maior relevância para diminuir o estresse dos netos”.
Entretanto, fez uma ressalva: eles funcionaram como um porto seguro para crianças e adolescentes em ambientes familiares onde havia o convívio entre gerações: “o idoso isolado e sozinho se torna vulnerável, o que mostra que todos precisam uns dos outros”, resumiu.
Na opinião da professora Rajita Sinha, a telemedicina pode ajudar na superação desse trauma coletivo provocado pela Covid-19. Sugere o emprego da terapia de curto prazo, mas adverte que é fundamental que a iniciativa seja encampada pelos governos, que deveriam preparar centros comunitários para atender a casos de estresse: “é preciso que as famílias tenham todo o suporte necessário. Nos Estados Unidos, um indivíduo leva, em média, até 11 anos para receber tratamento para problemas emocionais e mentais”.
No mesmo evento on-line, Kelly Greenwood, fundadora da Mind Share Partners, empresa de consultoria voltada para a criação de uma cultura de apoio à saúde mental no ambiente de trabalho, salientou que é uma responsabilidade organizacional que o clima pós-Covid seja acolhedor: “antes, bastavam ações de conscientização para superar o estigma em relação a dificuldades emocionais. Agora, o comando da empresa deve ter atenção redobrada para questões como microagressões, longas jornadas e insegurança profissional. O racismo estrutural leva minorias a serem alvos de uma carga ainda maior”.
Greenwood citou dois levantamentos realizados pela Mind Share com trabalhadores em tempo integral que mostram a delicadeza da situação: em 2019, 59% relatavam ter sofrido de algum problema emocional ou mental; em 2021, o percentual tinha saltado para 76%. “O aspecto positivo é as pessoas estarem falando mais abertamente sobre o assunto. A participação do principal líder pode ser uma ferramenta poderosa para mudar a cultura da organização. Se abordar o assunto com seus colaboradores, inclusive compartilhando dificuldades que já tenha enfrentado, pessoalmente ou com alguém próximo, ele se transformará num agente de mudanças”.



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